O presente de Noel
JM - especial guia de compras | comportamento
O presente de Noel
por Maria Rita Lemos
ma chuva miúda
começou a cair,
quando José dis-
tribuiu as últimas
balas da sacola a
crianças sonolen-
tas, cansadas do
movimento e da mistura de
sons, naquela noite de véspera
de Natal.
Pelo movimento da rua,
que foi diminuindo de repen-
te, José calculou que passava das
dez horas A chuva caía fininha,
e ele só pensava em chegar à
sua casa, na periferia, a tempo
de levar alguma coisa para as
crianças. Se os filhos estiverem
acordados, José pensava, abri-
riam hoje mesmo o carrinho e
a boneca que conseguiu com-
prar para eles, além do pane-
tone e da tubaína. Só restaria
comprar um frango assado
para o almoço de amanhã, e
estaria tudo certo, o resto das
coisas gostosas da cesta de
Natal que ganhou da loja fica-
ria para o ano-novo, porque o
emprego de Papai Noel aca-
bou esta noite. Amanhã será
outro dia. Amanhã... Felizmen-
te, deu certo esse emprego tem-
porário de Papai Noel que con-
seguiu no grande magazine; deu
para tirar um troquinho, por-
que, agora, ele não podia se es-
quecer de que era mais um bra-
sileiro desempregado. Depois
de doze anos como soldador
daquela empresa, nem doze
minutos foram precisos para
que, de repente, lhe mostras-
sem a porta da rua, ele e mais
dezoito companheiros. De re-
pente, ele se lembrou do pe-
dacinho do poema de Drum-
mond, que aprendeu na escola
e gravou um pedacinho, por
causa de seu nome:
"... e agora, José? a festa
acabou., o povo sumiu, a luz
apagou, e agora, José?,,," Ago-
ra é enxugar o rosto, tirar essa
roupa calorenta, o capuz e a
barba, que o linha quatro vai
passar daqui a pouco e ele não
pode perder... ou já teria per-
dido o ônibus para casa?
José correu ao vestiário,
trocou a fantasia de Noel por
sua calça de brim e a camisa
que ganhou da mulher no ani-
versário. Tadinha da Cida, fi-
cou tão preocupada com o
desemprego... foi graças ao
anúncio que ela leu,na casa
onde fazia faxina, que ele sou-
be daquele `bico' de Papai
Noel. Agora a festa pra todo
mundo começou, mas a dele
acabou.
José encarou a chuva, e
soube no ponto que seu ôni-
bus já passara, e nem pararia,
estava lotado. O negócio é ir a
pé, na chuva fria e fina. No ca-
minho, na Catedral toda ilumi-
nada, já tinha começado a mis-
sa do Galo. José entrou, por
falta do que fazer, e ficou
olhando para o presépio, aque-
le menino de sempre, de todos
os anos, meio encardido já, mas
os olhos continuavam brilhan-
do... e as pessoas continuavam
ao redor dele, rezando, rezan-
do. José ajoelhou, e pediu um
emprego. Mas duvidava que o
Menino fosse atender. No al-
tar, o coro cantava alegremen-
te: `Nada é impossível se em
Deus a fé tu tens'... será?
José saiu da igreja. Aper-
tou o passo, a chuva já não era
tão miúda. Caminhava depres-
sa, pensando nas fichas de em-
prego que preenchera nas últi-
mas semanas... nem uma res-
posta, nada...
Abriu o portão e seu cão
o saudou, alegre. Não sabia que
era Natal, que era aniversário
de Jesus, nem sabia do desem-
prego de seu dono.
José entrou na cozinha hu-
milde e viu que todos dormi-
am: Cida e Daiane, a filha bebê,
estavam no sofá, cochilando na
frente do TV, que mostrava a
missa do Galo em Roma, tal-
vez. As crianças maiores esta-
vam na cama.
Em cima da mesa, José
achou um envelope, que tinha
seu nome.. .o remetente, no en-
velope, era da maior firma
que ele preencheu ficha
para soldador... será? O
nome era o seu mesmo,
José Donizete de Sou-
za. era ele. E agora,
José? Com as mãos trê-
mulas, ele abriu a carta. Era
isso mesmo. Tinha que
comparecer com os do-
cumentos no dia 26 às 8
da manhã para o exame
médico....fora admitido como
soldador. Não era um grande
salário, mas tinha registro e as-
sistência médica, para começar
estava maravilhoso.
José olhou para a mulher
e a filha adormecidas, deitou a
cabeça nos braços, e deixou o
choro chegar, pensando no
menino do presépio. Como era
mesmo a música que eles esta-
vam cantando? "Nada é im-
possível se em Deus a fé tu
tens..." e ele, que nem se sabia
capaz de tanta fé, chorou,
chorou.,até adormecer. Diante
do TV ligado, diante de sua
mulher e filha. Diante da vida
que se abria, linda como uma
noiva, para o José que também
foi Papai Noel, naquela inesque-
cível véspera de Natal.
Gazeta de Limeira - 08